Dia Mundial da Saúde Mental: CRP-23 entrevista a psicóloga Káthia Nemeth

dia mundial da saúde mental

O Dia Mundial da Saúde Mental, instituído desde o ano de 1992 e celebrado anualmente em 10 de outubro, é uma data muito importante para visibilizar as condições e os desafios das políticas de saúde mental em todo o mundo e para sensibilizar governos e sociedade quanto a importância dos cuidados direcionados às pessoas em sofrimento psíquico.

Com o objetivo de fomentar a data e ampliar o diálogo sobre saúde mental, o Conselho Regional de Psicologia do Tocantins apresenta a seguir uma entrevista com a psicóloga *Kathia Nemeth Perez (CRP 23/212). Dentre outras questões, ela fala sobre o papel dos Conselhos de Psicologia no fortalecimento da luta antimanicomial, estratégias para preservação e ampliação dos cuidados em saúde mental durante a pandemia e ainda traz considerações sobre os compromissos que os futuros gestores eleitos em 2020 podem assumir para aumentar o acesso e a qualidade dos serviços de saúde mental prestados à população. Confira:

CRP23 Qual a importância da atuação do Conselho de Classe para as políticas de saúde mental?

Kathia Nemeth A histórica participação dos psicólogos e psicólogas nas lutas pela emancipação das pessoas com sofrimento mental se expandiu com o processo de redemocratização do país nos anos 80 após a abertura política e o fortalecimento das políticas de saúde que foram ganhando espaço na agenda pública e tinha por base a defesa de um sistema único de saúde.

A luta pela saúde pública pede atuações nos âmbitos macro e micropolítico em conjunto com movimentos sociais para consolidar a política de saúde em geral e a de saúde mental em particular. Nesse sentido é que o Conselho de Classe ganha importância para mediar a participação da categoria, tendo em vista os enormes desafios para efetivar os princípios dessas políticas: reverter permanentemente o parque manicomial substituindo-o por uma rede integrada de serviços, com foco nas ações extra-hospitalares e comunitárias, que articulam a estratégia de saúde da família e os centros de atenção psicossocial. Essa demanda política está vinculada aos desafios democráticos e à participação popular nas decisões do destino dos recursos públicos.

CRP23 Que ações concretas os Conselhos de Psicologia podem desenvolver para pautar a saúde mental no sentido de fortalecer a luta antimanicomial?

Kathia Nemeth  Em contraponto a lógica manicomial de exclusão e desconsideração do usuário como sujeito de direitos, o modelo psicossocial é a promoção de cuidados considerando que a atenção deve ser oferecida em locais acessíveis e atender as múltiplas necessidades dos indivíduos. Eles devem promover a emancipação e usar eficientes técnicas de tratamentos, que permitam as pessoas com sofrimento mental aumentar suas aptidões para o autocuidado e transitar no ambiente social informal da família, bem como mecanismo de apoio formais. Esses cuidados podem identificar recursos e criar alianças saudáveis que não seriam dinamizadas em outras circunstancias, já que cuidados baseados na hospitalização isolam e pioram o quadro do transtorno ao longo da vida. A luta antimanicomial tem por base esses princípios.

Concretamente os Conselhos de Psicologia devem desenvolver ações internas com os profissionais e externas com a sociedade em geral. As primeiras destinadas à categoria junto as psicólogas visam a ampliar a visão estratégica que acompanha o desenvolvimento científico e o exercício profissional, atentos a remover o que Roberto Machado (Costa, 1989: 15)[i] chamou de miopia política, pois qualquer atividade psicológica, seja a clínica de consultório até a atuação diretamente voltada a movimentos sociais possuem implicações na emancipação das pessoas e nos seus direitos enquanto cidadãos. Profissionais devem ser também acolhidos pelos Conselhos de Psicologia para que as políticas de saúde mental sejam efetivas e participativas desde a base da categoria.

A luta antimanicomial deve ser compreendida e assumida pelo conjunto de psicólogos, mediante trabalho permanente do Conselho de Psicologia, como a sensibilização quanto as armadilhas que são pautadas por ondas de retrocessos nas políticas de saúde e necessidade de articulações permanentes com outras categorias profissionais, usuários e familiares, de modo a enfrentar ordenações políticas divergentes da defesa da integridade humana dirigida a todos os cidadãos.

A fim de sustentar esse horizonte são imprescindíveis à saúde mental o campo técnico-assistencial, que exige práticas pautadas no paradigma psicossocial, inclusive com o apoio e o suporte institucional, para adoção de ações resolutivas e acolhedoras com vistas a continuidade do cuidado que a atenção extra-hospitalar em saúde mental exige.

A partir de um compromisso massivo com a categoria profissional, as ações externas vão sendo delineadas e propostas pelo Conselho de Psicologia, pautado na realidade social desafiadora, nos projetos coletivos e articulados com o movimento da luta antimanicomial conforme vai delineando junto aos atores sociais implicados.  

CRP23 Sabemos que o acesso aos cuidados de saúde mental está ainda mais reduzido durante a pandemia da COVID-19. O que você acha que é possível fazer, por parte dos profissionais da psicologia, para manter a assistência às pessoas que sofrem de problemas psíquicos neste cenário?

Kathia Nemeth O acesso as mídias digitais e a oferta de serviços por esse meio, no atendimento psicológico remoto se torna uma meta obrigatória para a categoria. O cenário atual que reduziu a experiência vital da interação humana presencial, pontual e os contatos físicos, vem produzindo sequelas e processos de sofrimento psicológico que trazem consequências a serem melhor estudadas e avaliadas pelas ferramentas das ciências psicológicas. O Conselho de Psicologia deve se preparar para orientar psicólogas nesses processos.

Sabe-se que a preservação e ampliação do acesso das pessoas que apresentam problemas psíquicos neste cenário são fundamentais e desta forma, devemos investir nossos recursos tecnológicos e teórico-metodológicos para enfrentarmos os prejuízos à saúde mental que a pandemia do COVID-19 vem provocando.

CRP23 Considerando que estamos em ano eleitoral, na sua opinião, quais os principais compromissos que as(os) candidatos às gestões municipais podem assumir para aumentar o acesso e a qualidade dos serviços de saúde mental prestados à população?

Kathia Nemeth Os candidatos às gestões municipais devem tomar ciência do modelo psicossocial como o paradigma de atenção integral que efetivamente oferece a melhor solução possível para os agravos à saúde mental, articulado com a estratégia de saúde da família. A sensibilização dos futuros gestores quanto ao investimento promissor que as ações da rede de atenção psicossocial proporcionam, oferecem respostas qualificadas de melhoria da saúde. Já alertava a OMS (1982)[ii] que os ‘gastos’ nessa área são altamente compensados por reduções significativas de outros investimentos em saúde, seja nos exames laboratoriais, hospitalizações e outras formas de atenção solicitadas quando os problemas de saúde mental não são diagnosticados, tratados e solucionados. Em razão dessas observações, os candidatos às gestões municipais devem assumir o compromisso de criar, manter e ampliar a rede de atenção psicossocial em seu município.  

[i] COSTA, J. F. Ordem médica e norma familiar. 2ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1983

[ii] OMS. Organização Mundial da Saúde. Relatório mundial de saúde: saúde mental: nova concepção, nova esperança.

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*Kathia Nemeth Perez é mestre em Psicologia, especialista em Psicologia Clínica e especialista em Saúde Pública com ênfase em Saúde da Família. Docente da UFT no curso de medicina. Agente Analista em Execução Penal – Psicologia – Secretaria de Cidadania e Justiça do Tocantins.

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